FETRANSPAR debate reajuste do frete e reforça importância da gestão de custos nas transportadoras
09 de outubro, 2026
Em reunião com Lauro Valdivia, assessor técnico da NTC&Logística, diretoria da Federação discute a defasagem média de 10,5% no frete, a necessidade de negociações anuais e a cobrança adequada dos componentes tarifários para garantir a sustentabilidade das empresas
A rentabilidade das transportadoras, a evolução dos custos operacionais e a necessidade de negociar reajustes de frete de forma permanente estão entre os principais desafios do transporte rodoviário de cargas. Para discutir essas questões e orientar os empresários na tomada de decisões, a diretoria e representantes do Sistema FETRANSPAR participaram, nesta sexta-feira (9), de uma reunião on-line com Lauro Valdivia, consultor em transporte e assessor técnico da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística).
Durante o encontro, Valdivia defendeu a utilização do Índice Nacional de Custos do Transporte (INCT) como referência para a atualização dos contratos de frete. Desenvolvido pela NTC&Logística, o indicador acompanha a evolução dos custos específicos da atividade e oferece uma base técnica para fundamentar as negociações entre transportadores e contratantes.
A apresentação também reproduziu informações discutidas no CONET&Intersindical, realizado em agosto, em Ouro Preto (MG), que apontou defasagem média de 10,5% entre os valores de frete praticados no mercado e os custos efetivos do transporte rodoviário de cargas, conforme levantamento do Departamento de Custos Operacionais e Pesquisas Técnicas e Econômicas (DECOPE), da NTC&Logística.
O índice é um alerta para o setor. Quando os preços cobrados não acompanham a evolução das despesas, a diferença precisa ser absorvida pelas transportadoras, comprometendo margens, capacidade de investimento e equilíbrio financeiro.
Reajuste anual deve fazer parte da gestão empresarial
Um dos principais recados de Valdivia aos empresários foi a importância de não deixar os reajustes se acumularem por vários anos. Segundo ele, a negociação precisa fazer parte da rotina de gestão das transportadoras, independentemente de o cliente aceitar integralmente o percentual solicitado.
O consultor explicou que esperar dois ou três anos para rever os valores pode tornar a negociação muito mais difícil. Com a acumulação das perdas, a empresa pode precisar solicitar aumentos elevados, que dificilmente serão absorvidos de uma só vez pelo contratante. O resultado pode ser a perda do cliente ou a manutenção de um contrato financeiramente desfavorável.
A orientação é que as empresas façam revisões periódicas, preferencialmente anuais, com base na evolução dos custos e nas condições de cada contrato. Mesmo quando não há acordo imediato, formalizar o pedido de reajuste contribui para documentar as negociações e demonstrar ao cliente a necessidade de recomposição dos valores.
Valdivia também explicou que o CONET&Intersindical busca uniformizar as referências para as negociações em âmbito nacional. A iniciativa permite que transportadores tenham um direcionamento comum, reduzindo divergências entre orientações regionais e nacionais.
Isso não significa, porém, aplicar o mesmo percentual indistintamente a todas as operações. Cada empresa possui contratos, clientes e níveis de defasagem diferentes. O objetivo é oferecer uma referência técnica para que os empresários avaliem sua situação e negociem com maior segurança.
Por que o INCT é uma referência para o frete?
Na avaliação do consultor, o INCT é o indicador mais próximo da realidade dos custos do transporte rodoviário de cargas porque considera os insumos diretamente relacionados à atividade.
Índices gerais de inflação, como o IPCA e o IGP-M, acompanham variações de preços de diferentes setores da economia. Já o INCT considera componentes específicos do transporte, como combustível, mão de obra, veículos e outros itens operacionais.
Essa diferença é importante porque a estrutura de custos de uma transportadora não acompanha necessariamente o mesmo comportamento da inflação geral. Alterações no preço do diesel, na remuneração dos motoristas e no valor dos veículos podem produzir impactos específicos sobre o resultado da operação.
Valdivia ressaltou, ainda, que os índices podem apresentar oscilações significativas conforme o período utilizado na comparação. Por isso, a escolha do indicador e a análise do intervalo de referência precisam ser consideradas na negociação de contratos, especialmente em operações com regras específicas para a aplicação dos reajustes.
Combustível, mão de obra e veículos concentram os custos
A composição dos custos operacionais apresentada durante a reunião demonstra o peso dos principais insumos na atividade. Segundo Valdivia, o combustível representa aproximadamente 45% dos custos, enquanto os veículos respondem por cerca de 28% e a mão de obra, por aproximadamente 19%. Os demais itens, como pneus, manutenção e lubrificantes, completam a composição.
Essas proporções podem variar conforme o tipo de operação. Empresas que utilizam ajudantes, por exemplo, podem apresentar participação maior da mão de obra nos custos.
O consultor também apresentou dados sobre a evolução das despesas ao longo de diferentes períodos, destacando a volatilidade dos combustíveis e o impacto dos reajustes salariais. Na análise referente ao primeiro semestre de 2026, os dados divulgados pela NTC&Logística registraram alta de 17,63% nos combustíveis, 5% na mão de obra e 1,32% no componente relacionado aos caminhões.
A diferença entre a evolução dos custos e a dos preços de frete reforça a necessidade de acompanhamento permanente. Para as empresas, conhecer a composição das despesas é fundamental para identificar perdas de rentabilidade e evitar que contratos aparentemente vantajosos produzam resultados negativos.
Não basta conquistar carga: é preciso cobrar o preço adequado
Outro ponto importante da apresentação foi a relação entre a política comercial e a saúde financeira das transportadoras.
A busca por cargas e clientes é essencial para manter a operação, mas a redução excessiva dos preços pode agravar os problemas financeiros quando o valor contratado não cobre os custos necessários à execução do serviço.
Nesse cenário, ampliar o volume transportado não significa, necessariamente, aumentar a rentabilidade. Uma empresa pode movimentar mais cargas e, ainda assim, acumular prejuízos se os preços não forem compatíveis com suas despesas.
A gestão precisa, portanto, considerar não apenas a ocupação da frota e a conquista de contratos, mas também a margem obtida em cada operação. O conhecimento dos custos e a negociação de valores adequados são instrumentos importantes para preservar a capacidade de pagamento, manutenção da frota e realização de novos investimentos.
Componentes tarifários precisam entrar na conta
A formação do preço do transporte não deve se limitar ao frete-peso, parcela relacionada à operação e calculada conforme características como peso da mercadoria e distância percorrida. Valdivia chamou a atenção para a necessidade de considerar os demais componentes tarifários aplicáveis a cada serviço.
Entre eles estão o Frete-Valor, relacionado aos riscos associados à mercadoria transportada; o GRIS, destinado a cobrir despesas de gerenciamento de riscos, especialmente medidas para reduzir a exposição a roubos; e as generalidades, que contemplam situações eventuais capazes de gerar custos adicionais, como a devolução de mercadorias.
O consultor explicou que esses eventos precisam estar previstos nas tabelas de frete, com informações claras sobre as condições de cobrança. A transparência na apresentação dos componentes e a comunicação prévia com os clientes são importantes para evitar que despesas não contempladas no preço original sejam absorvidas pela transportadora.
A apresentação também abordou os custos relacionados às obrigações de seguros no transporte rodoviário de cargas e a importância de considerar esses encargos na composição dos valores cobrados.
Para os empresários, a orientação é revisar as tabelas utilizadas nas negociações, verificar quais componentes se aplicam a cada operação e assegurar que os serviços e riscos adicionais estejam adequadamente precificados.
Pesquisa revela desafios do mercado
Durante a reunião, Valdivia apresentou ainda resultados de uma pesquisa realizada pela NTC&Logística com empresas do setor. Segundo os dados expostos, 31% dos participantes avaliaram que o desempenho no primeiro semestre de 2026 foi melhor do que no mesmo período de 2025. Para 44%, o resultado foi semelhante, enquanto 24% informaram desempenho inferior.
Entre os fatores que limitaram os resultados das empresas, a piora das condições de mercado apareceu como principal preocupação. O acesso ao capital, em um cenário de juros elevados, também foi apontado como dificuldade, seguido pela falta de mão de obra.
Os dados ajudam a contextualizar os desafios enfrentados pelas transportadoras, que precisam administrar custos, financiar suas operações e manter equipes qualificadas em um ambiente de pressão sobre a rentabilidade.
Valdivia também apresentou informações sobre a frequência dos reajustes realizados no primeiro semestre. De acordo com a pesquisa, 57% das empresas consultadas informaram ter reajustado seus fretes no período. O dado reforça a relevância do tema para o planejamento comercial e financeiro do setor.
Informação técnica para apoiar a tomada de decisão
A NTC&Logística também está ampliando as iniciativas de apoio aos empresários, com a criação de comitês temáticos voltados a áreas como recursos humanos, seguros, mercado, tecnologia e inovação, e ESG — ambiental, social e governança.
Entre as ferramentas apresentadas estão o portal SIT-TRC (sit-trc.com.br), destinado à divulgação de informações técnicas do setor, e o portal FreteNTC (fretentc.org), que disponibiliza simuladores para auxiliar análises e decisões relacionadas ao transporte.
Valdivia também mencionou a disponibilização de conteúdo de capacitação sobre componentes tarifários, com explicações sobre o que são esses itens, por que devem ser cobrados e como podem ser aplicados nas operações.
O acesso a informações técnicas e ferramentas de análise contribui para que as transportadoras tenham mais elementos para avaliar contratos, estruturar preços e planejar seus negócios.
Sustentabilidade do transporte depende de preços compatíveis com os custos
A discussão sobre o reajuste do frete envolve toda a cadeia logística. A manutenção de preços abaixo dos custos efetivos reduz a capacidade das transportadoras de investir em renovação de frota, manutenção, segurança e melhoria dos serviços.
Também afeta a possibilidade de oferecer remuneração competitiva aos motoristas e demais profissionais, cuja atuação é indispensável à continuidade das operações.
Nesse contexto, a recomposição do frete deve ser compreendida como parte da sustentabilidade econômica do transporte rodoviário de cargas. Acompanhar os custos, negociar reajustes periodicamente e cobrar corretamente os componentes tarifários são medidas que contribuem para a saúde financeira das empresas e para a qualidade dos serviços prestados.
Para os empresários, a mensagem central do encontro é clara: a gestão dos custos e a negociação permanente do frete são essenciais para manter a competitividade e a sustentabilidade dos negócios.
Missão: Fortalecer o setor de transporte de cargas rodoviário paranaense, representando os empresários independentemente do cenário – político, econômico ou social - que se apresente.
Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade e Utilização de Cookies bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados para as finalidades ali constantes. Saiba mais

