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Desafios e soluções para a falta de motoristas no transporte de cargas

25 de agosto, 2025

Envelhecimento da categoria, desinteresse dos jovens e falta de políticas públicas colocam em risco o transporte rodoviário de cargas

O envelhecimento da categoria, o desinteresse dos jovens e a ausência de políticas públicas colocam em risco a logística nacional, baseada quase integralmente no transporte rodoviário de cargas.  Empresas, sindicatos e governo buscam soluções para manter o país em movimento.
O transporte de cargas no Brasil enfrenta um cenário desafiador, marcado pela expressiva redução no número de motoristas de caminhão e carreta. Pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) revela que a falta de profissionais qualificados é o principal entrave para 65% das empresas do setor.

Dados do Registro Nacional de Condutores Habilitados (RENACH), da Secretaria Nacional de Trânsito (SENATRAN), apontam queda de 20% no número de motoristas habilitados nos últimos dez anos, passando de 5,5 milhões em 2013 para 4,4 milhões em 2023. Além disso, a idade média da categoria subiu para 53,5 anos, evidenciando o envelhecimento da força de trabalho.

Fatores que afastam novos profissionais

Sérgio Luiz Hoeflich, consultor da Intermercados e da YOD7, destaca três fatores principais que desestimulam a entrada de novos motoristas:

Condições de trabalho: longas jornadas, estradas inseguras, ausência de infraestrutura para descanso, baixa remuneração e falta de progressão profissional. A insegurança também pesa: em 2024, foram registrados 10.478 roubos de cargas no Brasil, segundo a NTC&Logística.

Alto custo inicial: o investimento para obter habilitação varia entre R$ 2.000 e R$ 5.000, dependendo do estado. Já a compra de um veículo próprio é praticamente inviável: um cavalo-mecânico trucado custa cerca de R$ 900 mil, enquanto um semirreboque de carga seca chega a R$ 280 mil.

Exigências securitárias: motoristas são contratados com base em critérios de confiabilidade e experiência, atendendo a requisitos das seguradoras, o que limita a entrada de novos profissionais.

Para Thelis Botelho, CEO da CarboFlix, a retração expressiva no número de motoristas habilitados resulta de fatores estruturais. “A mão de obra envelheceu e não houve renovação proporcional, sobretudo pela baixa atratividade da profissão entre os jovens. A rotina é exaustiva, com jornadas que ultrapassam 12 horas, longos períodos longe de casa e associação frequente a problemas de saúde. Soma-se a isso a baixa sensação de segurança e a falta de políticas de incentivo à formação e valorização profissional.”

Segundo ela, políticas de subsídio para habilitação e capacitação técnica, voltadas especialmente a jovens em situação de vulnerabilidade, poderiam repor a força de trabalho e oxigenar o setor.

Impactos do envelhecimento da categoria

Mais de 40% dos motoristas têm mais de 60 anos, o que acentua a urgência na renovação da força de trabalho. Esse envelhecimento compromete não apenas a operação diária das transportadoras, mas também o futuro da logística nacional.
Joyce Filus, diretora da Ghelere Transportes, observa que a modernização tecnológica dos veículos exige domínio de rastreadores, aplicativos, checklists digitais e sistemas de monitoramento. “O descompasso entre a alta demanda por habilidades tecnológicas e a idade avançada de muitos motoristas acelera a saída precoce desses profissionais do mercado”.

Vinicius M. Seraco, diretor de Gestão de Risco da SOLIST Corretora, complementa: “Os caminhões modernos exigem conhecimento técnico elevado, principalmente no transporte de alto risco, como combustíveis. Além disso, problemas crônicos de saúde, agravados pela idade, aumentam custos e riscos de acidentes”.

Motoristas estrangeiros: solução limitada

A contratação de motoristas estrangeiros surge como alternativa, mas enfrenta barreiras legais e operacionais. Questões como revalidação de CNH, exigências de residência, visto de trabalho e adaptação cultural limitam sua viabilidade.
Evelyn Martins, consultora da SIGA Gerenciamento de Risco, alerta para o risco de defasagem salarial: “Motoristas estrangeiros em situação vulnerável podem aceitar remunerações menores, promovendo uma deflação salarial que agravaria a crise”.

Tecnologia como aliada

Se por um lado a tecnologia afasta motoristas mais idosos, por outro pode mitigar gargalos. Sistemas de descarbonização de motores reduzem em até 10% o consumo de combustível. Aplicativos multifuncionais oferecem suporte psicológico, assistência mecânica e capacitação profissional. Checklists digitais, manutenção preditiva e rastreamento inteligente aumentam a segurança e a eficiência.

Botelho, da CarboFlix, avalia: “Essas ferramentas não apenas tornam o sistema mais eficiente, mas também reposicionam a profissão, alinhando-a às exigências contemporâneas de mobilidade e sustentabilidade”.

Já os caminhões autônomos, embora promissores, ainda enfrentam barreiras de infraestrutura e regulamentação no Brasil.

Custos logísticos e riscos sistêmicos

A escassez de motoristas já eleva os custos logísticos, impactando diretamente o preço do frete e, consequentemente, dos produtos essenciais.

Botelho alerta: “Mais de 80% das cargas no Brasil são transportadas por rodovias. A falta de motoristas representa um risco sistêmico para toda a cadeia produtiva.”

Exemplo recente foi a greve de caminhoneiros de 2018, que comprometeu o abastecimento e fez disparar os preços de alimentos.

Medidas em curso

Empresas, em parceria com o SEST SENAT e instituições como a Fabet, têm investido em capacitação, requalificação e criação de “escolas de motoristas”. Transportadoras como a Ghelere já formaram mais de 200 profissionais em três anos, integrando programas práticos e teóricos com acompanhamento próximo.

Segundo Seraco, da SOLIST Corretora, as empresas mais bem-sucedidas oferecem salários competitivos, bonificações por desempenho, veículos novos e manutenção preventiva em dia. “Essas empresas não sofrem com a falta de motoristas, pelo contrário: têm fila de candidatos.”

Formação profissional e mudanças no modelo de contratação

Cursos de especialização do SEST SENAT, como MOPP (Movimentação Operacional de Produtos Perigosos), e treinamentos da Fabet têm papel relevante, mas ainda insuficiente para suprir a demanda.
Mauricio Lima, sócio-diretor do ILOS, lembra que o atual modelo de contratação baseado no motorista autônomo tende a perder espaço. “A tendência é que as empresas assumam a compra dos veículos e contratem motoristas como empregados. O modelo de motorista autônomo com caminhão próprio deve se tornar cada vez mais raro”.

A pesquisa do ILOS mostra que, entre 2014 e 2024, o número de motoristas caiu 20%, passando de 5,5 milhões para 4,4 milhões. Em 2024, apenas 4,1% dos motoristas tinham menos de 30 anos, enquanto 11% tinham mais de 70.

Conclusão

A escassez de motoristas no Brasil é um problema complexo, resultado de fatores estruturais, envelhecimento da categoria, falta de atratividade e ausência de políticas públicas consistentes.

A solução exige um esforço conjunto entre empresas, sindicatos e governo, com foco em:

Valorização da profissão;

Modernização das condições de trabalho;

Investimentos em saúde e bem-estar;

Programas de formação e requalificação contínua;

Políticas públicas de incentivo à entrada de novos profissionais.

Fonte: LogWeb Foto: Ilustrativa/Divulgação

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